quinta-feira, 4 de abril de 2013

ENTRE O ANACRÔNICO E O ANACOLUTO

Uma vez me perguntaram se eu seguia uma linha mais de direita ou de esquerda. Minha resposta foi que não seguia nada e nem ninguém, mas tinha ( e ainda tenho ! ) fascinação pela tolerância.

Então onde ela se encontrar é  lá que costumo me sentir à vontade, pois a tolerância não tem cor e nem bandeira,  não é sectária, nem é preciso ser defendida "com fervor juvenil"

E o socialismo ? Continuou a sabatina.

Só o utópico, respondi. Nunca acreditei em um socialismo aplicado pelo Estado, a não ser que não fosse formado por pessoas e sim máquinas a espera de um comando. O meu socialismo sempre foi o de espírito e não essa coisa reduzida ao materialismo, ao econômico, ao ideológico, ao programático. Ditadura nenhuma pode ser  justificada por  mais nobres que possam parecer seus fins.

A única revolução possível de ser aceita é aquela que vem de dentro, no individual, na solidão do "eu". E é uma revolução brotada da experiência de vida e não imposta pela educação oficial ou religiosa ( o medo de ir para o inferno por não fazer o que é decente). É uma revolução surda e sem objetivos concretos, interiormente dolorida, limada pelo tempo.

Quando  ocorrer, pelo menos na maioria, a certeza da bonança interior que é dividir os conhecimentos, esta a riqueza que liberta ( _ não de bens materiais,  uma perda para quem doa, um ultraje para quem recebe, se este que recebe quiser ser livre, viver de sua dignidade _) de forma ampla e irrestrita a todos que tenham boa vontade, estará ocorrendo o socialismo de fato.

" Estará ocorrendo" porque jamais poderá ocorrer, finalizar, terminar. Se assim não for, voltamos à estaca zero, já que não podermos jamais eliminar as diferenças inerente à raça humana. Em tudo que não haja respeito aos contraditórios, há a ditadura, seja de esquerda, direita, da maioria ou minoria, da maioria de uma minoria, do patrão, do trabalhador.

A liberdade está na natural desigualdade sempre mutável. O que  é simétrico por completo é artificial, imposto ou velado.

Rotulado

Mudando (um pouco) de assunto ou by the way

Já há alguns meses na faculdade, em um rompante,  ousei dizer que tinha lido em livro qualquer que ainda não ocorreu o fenômeno do socialismo em pais algum, o que houve mesmo foi a implantação do 'capitalismo de estado', no qual o estado se apoderou de todos os meios de produção para se tornar o único e legitimado capitalista, a pagar baixíssimo salário aos trabalhadores. O que é pior: sem direito à greve.

Como não lembrei-me do nome do autor ( meu eterno mal de achar que os conceitos são mais importantes que os nomes), o professor desconsiderou a ideia e tachou-me de 'panfletário'.

Muitos colegas acharam uma ofensa e de fato o cara quis me desancar.

Mas cheguei a conclusão que foi, inconscientemente, um elogio : eis aí um que ousa pensar por si mesmo, livre das amarras dos conceitos prontos e aceitos pela academia por isso vou rotular _ panfletário ! _ e assim destruo sua perigosa impertinência.

Se isto significar liberdade, serei um eterno panfletário, nem de esquerda, nem de direita, nem da maioria, nem da minoria, nem da maioria de uma minoria, mas somente a serviço do que EU acredito, mesmo correndo o risco - estou disposto a isso - de ser considerado um ignorante que não traz à ponta da língua o nome do autor da ideia, se é que ela (ideia) e/ou ele(o autor) existam; ou não ter lido aquilo que programaticamente me indicaram para ler.

Hoje vivemos (na verdade, recrudescemos com)  a estranha _ e perigosa _ mania de sair rotulando, encaixando as pessoas em classes, com seus direitos personalíssimos : negros, gays, índios, trabalhador, contribuintes, mulher, doador de sangue, portador de, estudante, cadeirante, empregada doméstica, funcionário público...e parece que esquecemos que somos apenas isto: humanos. Sou eu, para alguns um panfletário sem classe !

Penso até que se por aqui imitássemos (também nisso) os americanos e fosse organizado um álbum de recordação de formatura da turma, abaixo da minha imagem estaria, jocosamente, o epíteto  em cor chamativa : " panfletário ! " ou, maldosamente, "completo anacrônico, sujeito anacoluto..".




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