sábado, 6 de abril de 2013

A ÚLTIMA DAS CASTANHOLAS CRUZEIRENSES.


No bucólico, personalíssimo e tradicional, bairro da Baixa (outrora Baixa da Égua) resta o último dos pés de   castanholas urbanos. Ele fica na Joaquim Távora, antes da subida do Morro dos Quibes.

Em uma postagem anterior prometi fazer uma ode ao sujeito árvore, a última da espécie urbanizada em Cruzeiro do Sul que ainda persiste em doar sombra aos transeuntes e a alguns moradores do bairro que vez ou outra vejo sentados num banco de madeira fixo na calçada, jogando conversa fora e bebericando uns aperitivos.

Desisti do sacrilégio quando soube que foi embaixo de um pé de castanhola( ou amendoeira ) que Drummond conseguiu inspirar-se para compor uma parte dos seus modernos poemas e textos. Vá que exista um deus da poesia que se zangue das minhas labruscas linhas...melhor não arriscar.

O que essa espécime de árvore tem de especial ? Para virar notícia eu diria, nada ! Veja se algum chefe de reportagem vá mandar se gastar tempo em se fazer uma matéria sobre o último pé de castanhola democrática da cidade ? Seria loucura pura !

Só mesmo um blogueiro lol da minha estirpe para perder tempo com isso, oras ! É que me passa que essa árvore ( não especificamente esta, mas as suas já extintas irmãs mais velhas) já foi muito importante na outrora urbanização da cidade. E serviu até de referência:
_ Fica onde ? 
_ Lá nas castanholas.
_ O Posto de Saúde da Castanhola.
_ O Mercadinho da Castanhola.
_ Depois do segundo pé de castanhola, contando daqui pra lá.
_ Foi encontrado morto embaixo do pé de castanhola, na entrada do bairro da  Lagoa.
_ Me espera aqui na castanhola, mas não olha para cima que mijo de cigarra cega. 

Deveras também que a castanhola não é nativa da região. É como todo o povo daqui, forasteira. Veio de longe, aqui fincou raiz, cresceu, reproduziu e como uma grande parte dos socialmente invisíveis, desapareceram as mais antigas sem deixar rastros. Marcas ? Talvez.

Então, à última das castanholas urbanizadora, ali tão humilde, escondidinha, quase invisível, o meu apreço, o que não é assim lá grande coisa neste espaço tão raro de visitas.

Quem sabe um dia um poeta não sente naquele banquinho de praça, próxima a tua pequena sombra e dane a escrever de verdade sobre a tua história, teus sonhos, ilusões e agora tua solidão em uma cidade que cresce, enquanto que sua gente, não.

Quem sabe não te tornes centenária, teu caule tão grosso, como tua resistência, guarde na casca túmida várias marcas de encontros de quem já chegou e de quem, como este blogueiro lol que de ti fala, já partiu.


quinta-feira, 4 de abril de 2013

ENTRE O ANACRÔNICO E O ANACOLUTO

Uma vez me perguntaram se eu seguia uma linha mais de direita ou de esquerda. Minha resposta foi que não seguia nada e nem ninguém, mas tinha ( e ainda tenho ! ) fascinação pela tolerância.

Então onde ela se encontrar é  lá que costumo me sentir à vontade, pois a tolerância não tem cor e nem bandeira,  não é sectária, nem é preciso ser defendida "com fervor juvenil"

E o socialismo ? Continuou a sabatina.

Só o utópico, respondi. Nunca acreditei em um socialismo aplicado pelo Estado, a não ser que não fosse formado por pessoas e sim máquinas a espera de um comando. O meu socialismo sempre foi o de espírito e não essa coisa reduzida ao materialismo, ao econômico, ao ideológico, ao programático. Ditadura nenhuma pode ser  justificada por  mais nobres que possam parecer seus fins.

A única revolução possível de ser aceita é aquela que vem de dentro, no individual, na solidão do "eu". E é uma revolução brotada da experiência de vida e não imposta pela educação oficial ou religiosa ( o medo de ir para o inferno por não fazer o que é decente). É uma revolução surda e sem objetivos concretos, interiormente dolorida, limada pelo tempo.

Quando  ocorrer, pelo menos na maioria, a certeza da bonança interior que é dividir os conhecimentos, esta a riqueza que liberta ( _ não de bens materiais,  uma perda para quem doa, um ultraje para quem recebe, se este que recebe quiser ser livre, viver de sua dignidade _) de forma ampla e irrestrita a todos que tenham boa vontade, estará ocorrendo o socialismo de fato.

" Estará ocorrendo" porque jamais poderá ocorrer, finalizar, terminar. Se assim não for, voltamos à estaca zero, já que não podermos jamais eliminar as diferenças inerente à raça humana. Em tudo que não haja respeito aos contraditórios, há a ditadura, seja de esquerda, direita, da maioria ou minoria, da maioria de uma minoria, do patrão, do trabalhador.

A liberdade está na natural desigualdade sempre mutável. O que  é simétrico por completo é artificial, imposto ou velado.

Rotulado

Mudando (um pouco) de assunto ou by the way

Já há alguns meses na faculdade, em um rompante,  ousei dizer que tinha lido em livro qualquer que ainda não ocorreu o fenômeno do socialismo em pais algum, o que houve mesmo foi a implantação do 'capitalismo de estado', no qual o estado se apoderou de todos os meios de produção para se tornar o único e legitimado capitalista, a pagar baixíssimo salário aos trabalhadores. O que é pior: sem direito à greve.

Como não lembrei-me do nome do autor ( meu eterno mal de achar que os conceitos são mais importantes que os nomes), o professor desconsiderou a ideia e tachou-me de 'panfletário'.

Muitos colegas acharam uma ofensa e de fato o cara quis me desancar.

Mas cheguei a conclusão que foi, inconscientemente, um elogio : eis aí um que ousa pensar por si mesmo, livre das amarras dos conceitos prontos e aceitos pela academia por isso vou rotular _ panfletário ! _ e assim destruo sua perigosa impertinência.

Se isto significar liberdade, serei um eterno panfletário, nem de esquerda, nem de direita, nem da maioria, nem da minoria, nem da maioria de uma minoria, mas somente a serviço do que EU acredito, mesmo correndo o risco - estou disposto a isso - de ser considerado um ignorante que não traz à ponta da língua o nome do autor da ideia, se é que ela (ideia) e/ou ele(o autor) existam; ou não ter lido aquilo que programaticamente me indicaram para ler.

Hoje vivemos (na verdade, recrudescemos com)  a estranha _ e perigosa _ mania de sair rotulando, encaixando as pessoas em classes, com seus direitos personalíssimos : negros, gays, índios, trabalhador, contribuintes, mulher, doador de sangue, portador de, estudante, cadeirante, empregada doméstica, funcionário público...e parece que esquecemos que somos apenas isto: humanos. Sou eu, para alguns um panfletário sem classe !

Penso até que se por aqui imitássemos (também nisso) os americanos e fosse organizado um álbum de recordação de formatura da turma, abaixo da minha imagem estaria, jocosamente, o epíteto  em cor chamativa : " panfletário ! " ou, maldosamente, "completo anacrônico, sujeito anacoluto..".




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