sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A VELHA A BAILAR

"_ Tamanha velha, tão boa de criar vergonha..."

Ué, mas por quê ? Ela não estava roubando ou praticando qualquer nulidade da vida social. Ela só dançava só, ao vento.

E daí se é velha ? Por que só aos velhos é cobrada " a vergonha na cara " quando quer ser livre das amarras ? O bebê é esperto, o jovem é rebelde, mas o idoso, o maduro, é sem-vergonha...  

E daí se ela dança na praça, enquanto os outros responsáveis pela produção do PIB, apressados, passam pela vida em busca das necessidades criadas pela natureza e na correria pela satisfação das necessidades artificialmente desejadas ?

Se a praça é pública, construída pelos encargos e impostos arrecadados pelo poder constituído, ela, que já contribuiu por longas décadas, é sócia majoritária.

Mas o que causa tanta ojeriza nas pessoas ao verem uma senhora idosa a dançar em praça pública, ao som de música nenhuma, a não ser aquela surdamente soprada na sua mente já cansada pelo tempo ?

Não poderia explicar o porquê do bailado, pois não compreendo-o. Quem baila não é humano,  na dança não há racionalidade, o corpo segue o som guiado por uma mente dormente, dopada; o corpo a desafiar a lei gravitacional . Ou se pensa ou se dança, não há meio termo.

Mas também não é bicho de outra espécie quem flui a se mover pela superfície sem andar ou não correr. Neste planeta, só os humanos desde as mais tenras sociedades dançam sob o som.

Deve então ser coisa de espírito, esse movimento. Talvez seja por isso que alguns vejam a dança como criação do mal, a seduzir o humano; enquanto outros a veem como a sublimação do ser,  portanto divina.

Aqui, penso em meu pobre filosofar  que o que desafia a visão daqueles que a reprovam é ver o corpo dela, flácido, a se mostrar  e remexer. Aquilo demonstra uma verdade cruel: _este é destino final de toda juventude, o que causa certa repulsa.

Então determinam que se deve esconder a realidade. É demasiadamente humano _ e restrito também à espécie humana _ a consciência sobre a velhice, sua decadência física e o medo inconsciente que isto provoca.

Pois bem. Queria eu, se velho ficar um dia, também quebrar esse protocolo tolo de que um idoso não possa ser um maluco a desafiar os  paradigmas de uma sociedade incrivelmente incomodada com a alegria alheia.

Fazer como aquela senhora, ali _ que já cumpriu com todas as etapas da caminhada terrena _ dançando na praça, sem tirar nada de ninguém, a não ser alguns segundos da atenção deles, nem que seja só para lhe rogarem impropérios  por ela ser livre, leve e solta _ e velha, este, o único  mal.



quarta-feira, 28 de novembro de 2012

TOSCA (E/ OU CHULA) SIMETRIA


Há um tempo, um pedreiro preguiçoso fez um tremendo de um bolo fecal _ para não escrever MERDA, já que isto é um blog de respeito_ aqui na minha personalíssima residência. 

Então, com  crise de humanismo e uma  tola pretensão de ensiná-lo a ser gente na vida, recitei-lhe um trecho do Fernando Pessoa ( ou Ricardo Reis) , assim colacionado:

"Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive."

Resultado: mandou-me tomar no cu, o mal educado.  Não vou , _ foi o que lhe respondi _ e por dois motivos muito simples: primeiro, que nada conheço dessa linguagem chula ( a gente tem que se impor !) e segundo, fosse bom fazer isso aí, você não estaria agora me mandando ir, já teria ido na frente há muito tempo...  

Se o paguei ? Sim. Considerei a possibilidade de ele não ter culpa de ser o filho de uma puta. E não estou me referindo ao fato possível de ela ( a que o pariu ) ser uma prostituta, uma profissão sofrida e para quem não tem outra opção na vida. Falo de ser uma relapsa com a educação do filho...

Antes de ir embora, ele ainda me disse: " O  sinhô é um cara estranho... mas é legal.

Não externei meus pensamentos que estavam _ ainda _ em conflito se  mandavam-no  'ir com Deus' ou para a 'puta-que-o-pariu !'

terça-feira, 27 de novembro de 2012

FERIADO, HOMEM LIVRE SEM CABEÇA

No último feriado em respeito ao dia da proclamação da república,  presenciei uma cena que quem ainda não viu, ainda findará por assistir. Talvez poucos parem para observar, como fiz :  vi um homem sem cabeça !

Foi ali na avenida 25 de agosto, em frente ao quartel do Sexagésimo Primeiro Batalhão de Infantaria de Selva (!), ou "Sexto Primeiro BIS" como achava mais fácil dizer aquele lendário político.

Não é potoca. Um homem, de pele clara, vestindo camiseta regata " made in Rio" e bermudão ao estilo dos garotões da zona Sul Carioca, estava sem cabeça. Não literalmente, pois algo existia no lugar a separar-lhe as orelhas !

Digo sem cabeça, pois me pareceu uma saúva decapitada a procurar desesperadamente o membro detentor da visão. Quem já viu uma formiga assim, sabe do que estou falando : O corpo, sem rumo balançando de um lado para o outro.

Se aquele homem, jovem, branco, tinha cabeça, faltava-lhe o recheio do cérebro. Se tinha o mais importante órgão de comando do corpo, então este não tinha conexão com os membros superiores e muito menos com os inferiores.

Ao ver aquela criatura possível acéfala, quase humana, me levou a pensar na  história de vida dele. Todos têm uma. Creio que ao segurá-lo pela primeira vez nos braços ou no colo, os pais _ou ao menos um deles _ devem ter sentido orgulho e alegria de sua descendência : _ Meu filho vai ter uma vida melhor que a minha...

Indubitavelmente aos pais, não agradaria vê-lo naquela situação, com os transeuntes ignorando-o como gente. Um bicho sem motivo para comiseração, respeito ou a menor das atenções.

De que posso deduzir da sua exposição é de que seria pobre o bastante para não possuir um automóvel ou moto. Caída estava ao seu lado uma bicicleta, daquelas antigas de barras circulares e com má conservação. Deduzo que assim seja, visto que em nossa cidade plantada entre colinas, quem ousa a andar de bicicleta ou é atleta ou é pobre. Aquela figura sem rumo, não seria atleta na concepção original da palavra.

E o homem aquela hora, ali em pleno feriado nacional de liberdade, a estar preso à sua fraqueza. Mas de que mal sofria a ponto de ter a cabeça dissolvida ?

Nisto, passa um grande carro, polido, de vidro fumê, reduz a velocidade e de dentro, um outro bicho solta um grunhido e atira ao homem sem cabeça uma lata seca de cerveja nacional, daquelas que mata a sede e atrai lindas mulheres de perfeitos corpos dourados.

Como de súbito, gastando o último raio de humanidade, o homem, branco, livre e jovem, desesperadamente procura levar a lata vazia, suja na poeira, aonde possivelmente imaginava um dia ter uma boca. De dentro do carro ouve-se gargalhadas simiescas. O automóvel então sai em disparada, deixando aquela visão grotesca e escarnecedora para trás.

Depois de vários minutos de agonia para mim que assistia à cena e torcia para que aquela criatura localizasse a cabeça perdida e tomasse o  seu rumo, ele finalmente tombou para o lado, em cima de um gramado, achando uma sombra, onde ressonou alto.

Então,  friamente, resolvi seguir meu caminho, entregando-o ao acaso : não era última cena de um homem sem cabeça em pleno feriado ou fim de semana que presenciaria em minha jornada terrestre. Eles estão aí aos milhares buscando a alegria que faz perder o rumo e a dignidade da vida.

Suave veneno que permite ser bonito dizer : _ Ontem tomei todas.... Bom, se para alguns não é bonito, ao menos é normal.
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Nunca vou entender essas mirabolantes convenções sociais e o que pensa  o nosso moderno monstro Leviatã ( Beba com moderação, o Ministério adverte, Diga não às drogas...), só devo agradecer ao destino por não ter me feito bicho afeito à escravidão da liberdade que me permite se envenenar a cada oportunidade.

Ao chegar em casa, assisti na TV que o governo e o Organização Mundial de Saúde estão deveras preocupados com a população que mastiga e engole a gorda carne vermelha. Deve ser isto: seu coração não pode parar, mas sua cabeça pode ser perdida pelas esquinas, seu corpo destroçado pelas ferragens e suas entranhas rasgadas pela arma do adversário eufórico.

Em tempo: As lindas mulheres de corpo dourado não curtem os homens barrigudos que abusam do direito de comer a carne com alto teor de colesterol. Não é "ão". A não ser, claro, que  a gula seja acompanhada daquilo que não faz parte dos sete pecados capitais : A criatividade das propagandas de fazer nascer um mundo paralelo e perfeito, o qual  só o álcool é capaz de proporcionar.


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