sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

A EMPATIA

smiley raiva nervoso

Há tempos que estava de olho nela. Uma fêmea de encher os olhos, a alma, a cama. Pura sedução que me fez vencer os meus maiores medos e timidez. Eu estava sim , pronto a me sacrificar por esse amor. Aliviado porque  diferente das " minas" de outras espécie que devoram seus parceiros, aquela no máximo me mataria de tanta luxúria.

Como um macho galanteador e nem um pouco apressado, cochichei em seu secreto ouvido o soneto da fidelidade. A leve fricção de minhas pernas deram o tom suave do acompanhamento. Em resposta, ela estremeceu e me olhou bem pertinho. Ah , aqueles olhos cinzas ! Brilhantes , redondos e grande olhos cinzas. Estávamos atenados pela doce paixão.

Não sendo eu,  o Cachorro Vadio e nem ela a Onça Pintada do Olhar Agateado daquela canção, não poderíamos nos amar na praça, assim,  como dois animais. Resolvi então convidá-la ao meu lugarzinho secreto, o paraíso onde se vive à vontade ou então vive-se  perdido. De lá saímos voando, apressados rumo ao nosso destino. Só os seus olhos me prendiam a atenção. Nem nuvens, nem sol, nem céu, nem inimigos, nem calor, nem frio. Paisagem nem tinha.

Depois de quilômetros ,enfim nosso ninho secreto , em um sítio à beira do Chaparral. Eis um lugar ideal para nossa troca de fluídos corpóreo. E começamos a nos amar ali mesmo na escada . Não sei porque mas sou chegado a uma escada. Um desvio comportamental  ? Talvez sim. Ou talvez seja minha mimese, assim desaforada a evoluir-se.  Herdaremos a Terra !

Ela, claro, lânguida,  inebriada pelo meu cheiro de macho, se entregou a volúpia. Perfeita fêmea no cio. Meus dedos, alisando aquela derme quitinosa, suavemente áspera e sensual. Sentia cada parte do seu rígido  corpo e seu abraços articulados. Ela  é realmente um perfeito exemplar entre tantas mil. Sou eu o sortudo dos Orthopteras ! Meu corpo sobre o dela,  em leves,  mais firme e constantes movimentos. Meu vigoroso abdômen em contato com seu largo e macio dorso. E ela ali,  pura, selvagem e incontrolável  a soltar sussurros e abafados gemidos.  Outra hora acavalada : uhuuuu !!!

Porém, antes que sentíssemos mil demônios a sacolejar nossos corpos,  no máximo, no ápice da possibilidade da explosão dos sentidos que nos permitiria a perpetuação dos genes, ouvimos um barulho irritante vindo da nossa esquerda. A princípio não acreditamos em tão impertinente quebra da intimidade alheia. Quem se atreveria ? Pensei.

Eis que surge a figura de um ser inferior na escala da evolução das espécies, portando um aparelhinho fabricado pela débil e atrasada tecnologia deles. Era um humano a nos espiar naquela posição ridícula que eles têm de caminhar sobre duas patas, quer dizer pernas, pois bicho não tem patas. Tenho asco pelos mamíferos em geral. Como Deus fez animais com esqueletos por dentro , com a pele assim sem proteção nenhuma  ? Que esquisito !

A minha primeira vontade foi de exterminar com aquele intruso esmagando-o  com o raio Z de  minhas antenas , porém ela, defensora do meio ambiente que é,  fez-me mudar de idéia. Para ela todos merecem viver pois cada espécie é importante no ecossistema, mesmo os mais insignificantes, como o homem. Além disso, quando esmagado ele solta um líquido viscoso  e vermelho que mancha qualquer chão.

Na verdade,  raiva mesmo eu tenho dos nossos primeiros  ancestrais que assinaram um tratado de paz, que não permite que nós exterminemos os humanos desse planeta através de nossas armas  naturais e de nosso numeroso exército dividido em 800 mil espécie .Uma hora ou outra nossa paciência acaba e não há eco-chatos que nos segurem..

Acabou o tesão, meu domingo está perdido, estou entristecido e sem vontade de beber. O jeito é descansar meu exoesqueleto, afinal a noite está chegando e os humanos costumam emitir sons irritantes e intermitentes durante boa parte do período noturno que atrapalha o sono de qualquer um. Amanhã é segunda feira e não quero chegar ao trabalho, assim,  grilhado. Mas, será que ainda há tempo ? Vem cá minha grilhinha....

                                A foto que gerou toda esse revolta é do Web design   Adson Dutra,  que não hesita em usar sua câmera indiscreta para flagrar grilo encangado. Muito cuidado conosco bicho grilo !!!!

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

PARA NÃO ATRAVESSAR O SAMBA

Apesar da ferrenha e cega resistência da prefeitura de Cruzeiro do Sul,  finalmente , prevaleceu o bom senso e foi acatada  a sugestão de  mudar o desfile dos blocos carnavalescos para a avenida Mâncio Lima.  Esse era o caminho natural e óbvio e não sei porque ainda não se havia  tomado esse resolução antes, bem antes. Ora,  a Mancio Lima supera, neste caso, a  avenida Rodrigues Alves em muitos quesitos , entre eles   segurança , espaço, iluminação e organização.

 
Só uma mente muito tacanha para achar que um desfile só pode ser melhor organizado se for feito  no local  de sempre, em respeito à tradição. Uma bobagem. Por conta disto, todo ano é uma verdadeira desorganização no Carnaval de rua na cidade do Trabalho e Cidadania. Um exemplo: por conta deste desfile, sempre o Carnaval popular no chamado " Gamelão" , começa muito tarde, tirando, para quem gosta da folia, várias horas a mais de diversão.

Além disso, tem-se que levar em consideração que são públicos distintos. A maioria das pessoas que vai assistir aos desfiles, entre elas idosos e crianças, hoje são obrigadas a dividirem o espaço com muita gente "turbinada" para a folia. Não é muito agradável para  esse povo, ver algumas cenas propiciadas pelo excesso de  álcool na mente dos foliões mais afoitos. O desfile é para um público mais sóbrio  e recatado. A diversão na praça cultural é para os ébrios ou para quem consegue suportá-los por ser Carnaval.

Existe, porém,  outro aspecto na questão que não vou  deixar de comentar:  Quando é que teremos realmente escolas de samba em Cruzeiro do Sul ? Ora, escolas de samba têm que funcionar o ano inteiro e não somente nas últimas semanas antes  do Carnaval com dirigentes de pires na mão atrás de verbas públicas. O resultado disto é uma fraca produção  que não empolga a quem assiste. Qual o trabalho social que essas agremiações fazem  junto à comunidade a qual representam ?


Faço essa crítica de espírito desarmado e destaco que não é diretamente às figuras dos presidentes. Pelo contrário, reconheço o esforço e a diligência de cada um. Entretanto, é insuficiente. Tudo é insuficiente : A  verba,  o tempo e principalmente o envolvimento das comunidades. E o mais salutar é que apesar de ser uma verba pouca,  ela é mal gasta,  porque não atinge o objetivo principal do financiamento público.


Sejamos realistas. No formato que está hoje, com esse dinheiro  doado em cima da hora, assemelha-se a um circo que se arma  instantâneo, sem artistas preparados, que se reflete na apatia do público. Não há resultados. O trabalho deveria ser contínuo e ao longo prazo, com o apoio e acompanhamento do poder público das duas esferas mais próximas aos cidadãos. Com o tempo a Liga das escolas caminharia sozinha. E o desfile no Carnaval dessas agremiações não deveria ser a meta e sim a consequência do trabalho de um ano todo, envolvendo o maior número de pessoas possíveis dos bairros ou regiões da cidade. Alguém já ouviu o público cantando o samba enredo das escolas no dia do desfile ?

É impossivel se fazer um trabalho social de qualidade às pressas. Na verdade essa correria inibe os talentos natos que estão por aí a espera de serem descobertos, ou na pior das hipóteses se entregando ao alcoolismo ou à dependência das drogas. Uma escola de samba de verdade não forma só sambistas, alías é o mínimo  que se espera dela.  Além do mais, ninguém precisa viver ( só)  de samba .  Contudo ,   pode ser a porta de entrada para a inclusão social ou a da saída da escuridão cultural.

Não se visualiza luxo a uma escola de samba nos confins da amazônia ocidental, espera-se,  no entanto, criatividade e organização, qualidades essas que só vêm com o envolvimento popular. Somente isso é capaz de evitar o " samba atravessado ".  Cultura se faz com perseverança.


Enquanto essa utopia  não se concretiza que aproveitem , então,  a Mâncio Lima e seu moderno traçado para se fazer um melhor desfile, antes que apareça um  " gênio "  metido a engenheiro de trânsito e tasque uma calçada no meio da rua para " melhorar o tráfego " como o Mestre  Sala, que dizer Sales, fez   na rotária da praça de táxi, no ínicio da Rodrigues Alves. Vejam a idéia " engenhosa"  abaixo:

 Fonte da imagem : soscruzeiro.blogspot.com

domingo, 13 de fevereiro de 2011

DOMINGO NA ESCADARIA DO SAMAMBAIA



  _ Quanto Custa ?

" _ Três Real, Sinhô. "

 _ Quero um litro.

" _ Mas tá muito caro !  Um dia desse era um real. "

" _ Ah, meu amigo você sabe o trabalho que dá para fazer isso ? Se atrepá no pé, cortá, trazê de longe nas costas..."

"_ Ah, tá ! Pesado é trabalhar de servente de pedreiro, o dia todo, traçando e carregando massa ,  concreto e tijolo, no sol quente e ainda aguentando aporrinhação para ganhar quinze reais.."

_ Minha jovem, não esqueça o meu litro.

"_  Pode deixá moço. Já tou fazendo. "


O pequeno vasilhame de alumínio,  seguro pelos dedos Indicador,  Médio e o Polegar oposto,  mergulhou no panelão,  também de alumínio, uma,  duas vezes,  deixando um rastro de pequenas borbulhas no grosso líquido da cor do mais escuro dos vinhos tinto,  mágica ofertada pela grande presença do anti-oxidante Antocianina na sua composição. O conteúdo do pequeno vasilhame é derramado dentro de um saco plástico com a capacidade de 1 kg ou de um litro como dizemos por aqui.


Presto atenção na destreza da vendedora. Nenhuma gota escorre fora do recipiente plástico ou fora do vasilhame.  O enchimento  é perfeito e sem desperdício,  competência capaz de causar inveja aos melhores teóricos do saber-fazer.  Eis   um exemplo de senso de utilização ! Olho para aqueles dedos, a girar o saco já cheio. Agora começa o desfecho. São dedos morenos, finos, pequenos e extremamente ágeis. As unhas estão escurecidas devido ao constante contato com o líquido. Não de agora. Talvez do ínicio do dia. Ninguém é perfeito. Nem mesmo os mais rápidos no carteado escapa  à  impregnação de suas cartas. Faz parte do ofício.


O saco gira, uma , duas,  três,  quatro,  cinco vezes. Antes ela tirara uma pequena fita artesanal feita a partir  do mesmo  material do saco. Como uma espécie de mágica aquela fitinha enrrolada na boca do saquinho, se se fecha  em um caprichoso laço,  perfeitamente simétrico,  a lacrar o conteúdo. União do útil  ao bem feito. Recebo o litro nas mãos e percebo que está morno,  suave.

" _ Esse é feito na mão ? Gosto é assim quando é pisado,  machucado com os pés. Esse é que é gostoso", opinou  um sujeito que acabara de chegar.

"_ Não sinhô, esse é feito na máquina."


Deixo a banquinha de açaí e aquela simpática trabalhadora, que por agora está  _  ao menos no domingo, enquanto o "sêo" lobo não vem   _  vendendo seu produto, alí na escadaria do saudoso clube social Samambaia,  livre da perseguição dos fiscais que só cumprem ordem. Um dia, quem sabe, teremos uma administração pública que se preocupe de fato com a saúde básica  da população e menos com a arrecadação de  impostos . Que organize aquelas banquinhas, com todos usando luvas e toucas, mas que nunca se perca a criatividade de se fazer laços com fitinhas plásticas,  artesanais, rápidas,  eficientes e simetricamente perfeitas.


Compro farinha de tapioca e açucar "gramixó" ou mascavo. Visualizo a mistura dos brancos e fortes caroços da farinha de tapioca com o marron doce do açucar in natura e ao tinto marivilhoso do açaí . Comprovo que o melhor da vida está,  assim,  no misto das texturas e das cores. Eis o meu vício de domingo. Que se danem os coliformes do cotidiano que insistem em deixar nosso caminho, por retórica, de uma só cor.


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