domingo, 12 de fevereiro de 2012

NÃO POR TI, CANGATI !

Hoje vou de mais uma anedota.

Sábado de aleluia. Nesta data, naquela época, roubar uns galinhas do vizinho era uma tradição. Uma tradição safada, travestida de inocente. Geralmente quem começava a roubar galinha no sábado de aleluia, pegava gosto pela coisa e passava a tomar posse do alheio durante o ano todo. Uns viraram até representantes da população na "casa do povo". Mas não entremos nesta inútil discussão sócio-político-ideológica.

Vamos falar de João, conhecido no bairro como "Cangati". Nenhuma alcunha é sem motivos. Tinha uma barriga saliente, pernas finas e bunda mucha. Um autêntica embiara. Era uma figura. Metido a roqueiro sem nunca ter pego em guitarra, um rebelde que se meteu a tatuar  o antigo símbolo da marca esportiva "adidas" no peito. Em suma, um roqueiro com atitude contra o sistema.

Mas Cangati era bom mesmo em furtar as penosas no sábado de aleluia. A turma que pretendesse ter sucesso na empreitada para depois comer assada, em fogueira improvisada, a prenda, em roda de cachaça em quanto se ria da façanha, tinha que contar com Cangati como capitão 

Pois naquele sábado de aleluia, João já havia escolhido a vítima que deveria "valsar" em algumas cabeças de galinha. O nome dela era Amelinha, uma idosa viúva e solitária. A velhinha era muito conhecida no bairro por ser uma exímia rezadeira.

Por certo que Cangati já arquitetara seu plano. A dona das galinhas era sua vizinha. Como bom escoteiro, durante o dia ele se prontificou a realizar uma faxina no quintal. A boa ação foi aceita pela viúva, de muito grado, " você é menino bom João, não é nada daquilo que dizem por aí ".  Astuto, conseguiu seu intento que era de conhecer cada ponto do terreno de sua futura batalha de logo mais.

Na madrugada, João adentrou o local. Garantido pelo escuridão da noite e fiado no sono profundo que dona Amelinha deveria está mergulhada, pé ante pé, ele se aproximou do seu alvo, o galinheiro.

Foi João esticar o braço para abrir a tranca da pequena construção onde estavam as gordas cacarejantes, quando uma luz intensa e cegante, repentinamente, lhe queimaram a pestana. Era dona Amelinha focando com uma potente lanterna:

_ João Cangati, então é você ...

Com outra mão, ela segurava uma velha espingarda.

Ele teve que raciocinar rápido:

_ "Shiiiiiii !!!! Silêncio dona Amelinha" , disse quase que sussurrando, " tem um ladrão aqui dentro do seu quintal e eu tô no rastro dele ....

_ Mas João, o ladrão aqui é você....


-Shiiii, fale baixo e apague essa lanterna, a senhora vai espantar ele e a senhora sabe como esses meninos corre quando tão com medo....

Apontando para algum lugar da escuridão no fundo quintal, gritou: Lá vai ele, pega ladrão ! e correu em disparada naquela direção enquanto a velhinha acionava-lhe um tiro de cartucho com pólvora , sal e pimenta-do-reino nos fundilhos.

Por esta e outras que João Cangati virou lenda no bairro.

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