terça-feira, 27 de novembro de 2012

FERIADO, HOMEM LIVRE SEM CABEÇA

No último feriado em respeito ao dia da proclamação da república,  presenciei uma cena que quem ainda não viu, ainda findará por assistir. Talvez poucos parem para observar, como fiz :  vi um homem sem cabeça !

Foi ali na avenida 25 de agosto, em frente ao quartel do Sexagésimo Primeiro Batalhão de Infantaria de Selva (!), ou "Sexto Primeiro BIS" como achava mais fácil dizer aquele lendário político.

Não é potoca. Um homem, de pele clara, vestindo camiseta regata " made in Rio" e bermudão ao estilo dos garotões da zona Sul Carioca, estava sem cabeça. Não literalmente, pois algo existia no lugar a separar-lhe as orelhas !

Digo sem cabeça, pois me pareceu uma saúva decapitada a procurar desesperadamente o membro detentor da visão. Quem já viu uma formiga assim, sabe do que estou falando : O corpo, sem rumo balançando de um lado para o outro.

Se aquele homem, jovem, branco, tinha cabeça, faltava-lhe o recheio do cérebro. Se tinha o mais importante órgão de comando do corpo, então este não tinha conexão com os membros superiores e muito menos com os inferiores.

Ao ver aquela criatura possível acéfala, quase humana, me levou a pensar na  história de vida dele. Todos têm uma. Creio que ao segurá-lo pela primeira vez nos braços ou no colo, os pais _ou ao menos um deles _ devem ter sentido orgulho e alegria de sua descendência : _ Meu filho vai ter uma vida melhor que a minha...

Indubitavelmente aos pais, não agradaria vê-lo naquela situação, com os transeuntes ignorando-o como gente. Um bicho sem motivo para comiseração, respeito ou a menor das atenções.

De que posso deduzir da sua exposição é de que seria pobre o bastante para não possuir um automóvel ou moto. Caída estava ao seu lado uma bicicleta, daquelas antigas de barras circulares e com má conservação. Deduzo que assim seja, visto que em nossa cidade plantada entre colinas, quem ousa a andar de bicicleta ou é atleta ou é pobre. Aquela figura sem rumo, não seria atleta na concepção original da palavra.

E o homem aquela hora, ali em pleno feriado nacional de liberdade, a estar preso à sua fraqueza. Mas de que mal sofria a ponto de ter a cabeça dissolvida ?

Nisto, passa um grande carro, polido, de vidro fumê, reduz a velocidade e de dentro, um outro bicho solta um grunhido e atira ao homem sem cabeça uma lata seca de cerveja nacional, daquelas que mata a sede e atrai lindas mulheres de perfeitos corpos dourados.

Como de súbito, gastando o último raio de humanidade, o homem, branco, livre e jovem, desesperadamente procura levar a lata vazia, suja na poeira, aonde possivelmente imaginava um dia ter uma boca. De dentro do carro ouve-se gargalhadas simiescas. O automóvel então sai em disparada, deixando aquela visão grotesca e escarnecedora para trás.

Depois de vários minutos de agonia para mim que assistia à cena e torcia para que aquela criatura localizasse a cabeça perdida e tomasse o  seu rumo, ele finalmente tombou para o lado, em cima de um gramado, achando uma sombra, onde ressonou alto.

Então,  friamente, resolvi seguir meu caminho, entregando-o ao acaso : não era última cena de um homem sem cabeça em pleno feriado ou fim de semana que presenciaria em minha jornada terrestre. Eles estão aí aos milhares buscando a alegria que faz perder o rumo e a dignidade da vida.

Suave veneno que permite ser bonito dizer : _ Ontem tomei todas.... Bom, se para alguns não é bonito, ao menos é normal.
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Nunca vou entender essas mirabolantes convenções sociais e o que pensa  o nosso moderno monstro Leviatã ( Beba com moderação, o Ministério adverte, Diga não às drogas...), só devo agradecer ao destino por não ter me feito bicho afeito à escravidão da liberdade que me permite se envenenar a cada oportunidade.

Ao chegar em casa, assisti na TV que o governo e o Organização Mundial de Saúde estão deveras preocupados com a população que mastiga e engole a gorda carne vermelha. Deve ser isto: seu coração não pode parar, mas sua cabeça pode ser perdida pelas esquinas, seu corpo destroçado pelas ferragens e suas entranhas rasgadas pela arma do adversário eufórico.

Em tempo: As lindas mulheres de corpo dourado não curtem os homens barrigudos que abusam do direito de comer a carne com alto teor de colesterol. Não é "ão". A não ser, claro, que  a gula seja acompanhada daquilo que não faz parte dos sete pecados capitais : A criatividade das propagandas de fazer nascer um mundo paralelo e perfeito, o qual  só o álcool é capaz de proporcionar.


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