domingo, 13 de fevereiro de 2011

DOMINGO NA ESCADARIA DO SAMAMBAIA



  _ Quanto Custa ?

" _ Três Real, Sinhô. "

 _ Quero um litro.

" _ Mas tá muito caro !  Um dia desse era um real. "

" _ Ah, meu amigo você sabe o trabalho que dá para fazer isso ? Se atrepá no pé, cortá, trazê de longe nas costas..."

"_ Ah, tá ! Pesado é trabalhar de servente de pedreiro, o dia todo, traçando e carregando massa ,  concreto e tijolo, no sol quente e ainda aguentando aporrinhação para ganhar quinze reais.."

_ Minha jovem, não esqueça o meu litro.

"_  Pode deixá moço. Já tou fazendo. "


O pequeno vasilhame de alumínio,  seguro pelos dedos Indicador,  Médio e o Polegar oposto,  mergulhou no panelão,  também de alumínio, uma,  duas vezes,  deixando um rastro de pequenas borbulhas no grosso líquido da cor do mais escuro dos vinhos tinto,  mágica ofertada pela grande presença do anti-oxidante Antocianina na sua composição. O conteúdo do pequeno vasilhame é derramado dentro de um saco plástico com a capacidade de 1 kg ou de um litro como dizemos por aqui.


Presto atenção na destreza da vendedora. Nenhuma gota escorre fora do recipiente plástico ou fora do vasilhame.  O enchimento  é perfeito e sem desperdício,  competência capaz de causar inveja aos melhores teóricos do saber-fazer.  Eis   um exemplo de senso de utilização ! Olho para aqueles dedos, a girar o saco já cheio. Agora começa o desfecho. São dedos morenos, finos, pequenos e extremamente ágeis. As unhas estão escurecidas devido ao constante contato com o líquido. Não de agora. Talvez do ínicio do dia. Ninguém é perfeito. Nem mesmo os mais rápidos no carteado escapa  à  impregnação de suas cartas. Faz parte do ofício.


O saco gira, uma , duas,  três,  quatro,  cinco vezes. Antes ela tirara uma pequena fita artesanal feita a partir  do mesmo  material do saco. Como uma espécie de mágica aquela fitinha enrrolada na boca do saquinho, se se fecha  em um caprichoso laço,  perfeitamente simétrico,  a lacrar o conteúdo. União do útil  ao bem feito. Recebo o litro nas mãos e percebo que está morno,  suave.

" _ Esse é feito na mão ? Gosto é assim quando é pisado,  machucado com os pés. Esse é que é gostoso", opinou  um sujeito que acabara de chegar.

"_ Não sinhô, esse é feito na máquina."


Deixo a banquinha de açaí e aquela simpática trabalhadora, que por agora está  _  ao menos no domingo, enquanto o "sêo" lobo não vem   _  vendendo seu produto, alí na escadaria do saudoso clube social Samambaia,  livre da perseguição dos fiscais que só cumprem ordem. Um dia, quem sabe, teremos uma administração pública que se preocupe de fato com a saúde básica  da população e menos com a arrecadação de  impostos . Que organize aquelas banquinhas, com todos usando luvas e toucas, mas que nunca se perca a criatividade de se fazer laços com fitinhas plásticas,  artesanais, rápidas,  eficientes e simetricamente perfeitas.


Compro farinha de tapioca e açucar "gramixó" ou mascavo. Visualizo a mistura dos brancos e fortes caroços da farinha de tapioca com o marron doce do açucar in natura e ao tinto marivilhoso do açaí . Comprovo que o melhor da vida está,  assim,  no misto das texturas e das cores. Eis o meu vício de domingo. Que se danem os coliformes do cotidiano que insistem em deixar nosso caminho, por retórica, de uma só cor.


Um comentário:

  1. Já cansei de falar que orgãso como vigilância sanitaria, sebrae e outros deveriam se unir para dar assitência a esta categorai que representa uma cadeia produtiva importantíssisma, e totalmente desvalorizada que á a dos "vinhos" açaí, buriti, patoá, bacaba e também da pupunha. A atividade combina extrativismo vegetal não-madereiro, artesanato e comércio regional. Deveriam olhar para esta categoria com mais carinho, incluisve com financiamento para estas pequenas indúistrias caseiras.

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