quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Há 15 anos às 15 horas...




memórias




"[ ... ] Memories back when she was bold and strong and waiting for the world to come along...Swears she knew it, now she swears he's gone [ ... ]. Pearl Jam.  " Better Man " _ Vitalogy  ( 1993 )


Há 15 anos, um moleque magrelo, recém emancipado pelo código civil, de cabelos longos, trajando uma calça jeans surrada e uma camiseta preta com a imagem e o nome da Pearl Jam, sua banda de rock preferida, desembarcou no aeroporto de Cruzeiro do Sul. Não trazia ainda consigo a marca do tempo estampada no rosto e nem o estrago de noites passadas. Era o dia 09 de fevereiro às 15 horas.


Veio trazido de Rio Branco, pelo vôo da agora extinta Varig. Por necessidade de cumprir ordens da empresa pública federal na qual era ainda funcionário novato, passaria os próximos  06 meses longe da família, dos amigos e dos estudos. Não sabia se procurava aventura, fugir do zêlo chato dos pais, ou uma simples loucura de fazer o caminho inverso da lógica de quem quer vencer na sociedade nacional capitalista. Largara uma faculdade pública no último período rumo ao desconhecido.


"  Irás para o meio do mato , a se entediar com uma uníca rua, sem nada , na qual a cidade toda  está inclusa ? Tens certeza que é isso que quer para o seu futuro ?  Perguntou-lhe um amigo na véspera do embarque.   " Dane-se o futuro, vou a trabalho. Se não gostar eu volto. Não vou a uma prisão. Se tudo que tenho aqui não me prende, imagine lá , onde não tenho nada e nem conheço ninguém. "


A partir daquele dia 09 de fevereiro, viu que em Cruzeiro do Sul, não havia só uma rua, pelo contrário a cidade tinha um urbanismo surpreendente , a considerar o isolamento cruel por quase um século. Aprendeu que a história heróica do estado não pode se  resumir apenas  à revolução liderada por Plácido de Castro na região do rio Acre. Comprovou que o Acre tem igarapés de água preta e rios de várzea, sem barrancas, com margens cobertas por finíssima areia branca. Comprovou da pior forma possível que existe um troço, pequeno, quase imperceptível aos olhos, chamado de " Joaninha ", que não perdoa o contato físico com os humanos. O primeiro encontro é inesquecível.


Hoje dia 09 de fevereiro de 2011, aquele moleque do espelho já não existe mais. Sua magreza, fora engolida pelo descaso à parte do físico, o rosto está marcado pelas noites que vieram e já não tem a Pearl Jam como a voz da consciência. Nem banda ou música favorita ele tem mais. Ainda alguns cabelos, impossíveis  de serem longos.


Agora após quinze anos, o futuro ainda não veio. Não tem mais o mesmo emprego, mas continua com a sensação de que ainda não é nada e nem tem tudo. Só sobreviveu o espírito do inconformismo. Entretanto, sobreviveu ao ideal do maldizer-se e de pôr a culpa no destino. Conheceu muita gente que nasceu aqui  e não ama a terra. Gente boa que aqui não nasceu e fez do local o seu oásis de paz  e perseverança e também rara gente que não merecia nem nascer, tampouco pisar na terra alheia.


Leu recentemente um imbecil odioso jactar " que os de fora são uns aproveitadores que vêm aqui escapar  ". O comentário mais rídiculo e preconceituoso que já viu na vida.  Ninguém vem escapar em Cruzeiro do Sul.  Aqui não é o paraíso. Quem vem compartilha as vitórias e as derrotas, os avanços e os atrasos. Aqui não é  o paraíso. Só um recanto em busca dele. Duvida-se que exista paraíso no Brasil.  Em absoluto, o menino  não veio aqui escapar, veio em busca da liberdade  e ficou preso aos imponderáveis da Terra das Ladeiras.


O que é ser cruzeirense ?  O que faz alguém ser  cruzeirense ?  O nascer  aqui é só um detalhe. Ser de fato é pagar valores monetários exorbitantes para se ter o básico da vida. É está ilhado por via terrestre na maior parte do ano. É ter poucas ou quase nenhuma opção cultural e de lazer. É sofrer com falta de oportunidades. É achar, sonhar,  que tudo de uma hora para outra vai mudar para melhor e por isso não vai embora em busca de realizações, como dezenas de centenas ou mesmo milhares de  outros fizeram. É sentir que não fez ainda o que poderia ter feito. O resto é só retórica ou recordações.


Estoicamente, percebeu nas primeiras horas de hoje que em nada contribuiu para ser um cidadão cruzeirense. Ganhou mais do que recebeu. Se fosse morar amanhã em outra localidade não faria a menor falta à cidade. Bendita seja a madrugada. Ela é reveladora. Só ela faz uma música comum, sonora de um rádio ou aparelho qualquer na casa  de um vizinho indefinido, causar nostalgia. A calma da madrugada nos torna mais humanos e também mais livres. Não encontrou a cidade dos seus sonhos, encontrou a si . Entendeu por que Lennon disse que nenhum lugar faz de ninguém uma pessoa melhor. Isso não é conformismo. Se é para ir à algum lugar que seja para frente. 


Hoje ele é um adolescente cruzeirense e é livre para amar essa terra. E o que restou do passado daquele distante 09 de fevereiro há 15 anos às 15 horas ?  Nada, a não ser a lembrança do trecho da música do Pearl Jam, assobiada, quando pôs os pés juvenis na brava Terra dos Nauás:


"    [ ...] She lies and says she's in love with him, can't find a better man
             She dreams in color, she dreams in red, can't find a better man [ ... ]  

 O anjo  que apareceu ao Drummond , deu o ar de sua graça e estava mais torto ainda:
" _ Vai Jairo ! Ser gauche na vida, nem que seja em Cruzeiro do Sul ".  Mais uma noite a deixar marcas em seu rosto.

2 comentários:

  1. Caro Jairo, à parte a nossa amizade e admiração(recíproca) tenho que admitir que poucas vezes li um texto tão revelador e tão verdadeiro (tirando a parte em que vc acha que ainda não fez nada). Parabéns pelo seu "aniversário cruzeirense", que ele se multiplique em 3 em 4.

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  2. Jairo, optei por viver nesta terra há cerca de 10 anos e até hoje ouço o mesmo discurso de que somos "aproveitadores". Aproveitar o que? Só se forem as 13 malárias. Outro também é que só vem para cá quem "estava morrendo de fome" em outros lugares. Freud explica: tem gente que tem tão grande desapreço peolo seu proprio povo e pela sua terra que não acredita que alguém possa viver aqui por escolha.

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