segunda-feira, 28 de março de 2011

NA PENUMBRA UM PÉ DE LARANJA-LIMA





Sexta  à noite, caminhei envolto de finas névoas. Não estava em Londres. Estava na cidade das ladeiras, no extremo ocidental do Brasil tropical. Como a noite me faz bem ! De camiseta, short e calçado com um chinelo-de-dedos, subi e desci morros em ruas quase desertas. Alguns locais de nossa cidadela ainda são pacatos. Danem-se o luxo, a pompa, a ostentação dos generais sem fardas, a cobiça de quem se julga acima do bem e do mal e as fuligens d'almas que tornam cinza a civilização. Isto tudo é muito pequeno ante a sensação de respirar a liberdade.

As ruas desertas me acalentam. Livre do movimento diurno e da velocidade dos automóveis, as cidades parecem maiores, mais largas, mais limpas, mais bonitas. Só assim percebe-se os detalhes: Casinhas que parecem sumir no dia-a-dia, misteriosamente aparecem, aguçam-nos  a visão. Algumas com faces históricas, já carcomidas pelo tempo , com jardins descuidados e  pequenos portões de ferro oxidados pela chuva, sol e vento. Guardam segredos, tristezas, alegrias,descasos, nostalgias e saudades. Sonhos sonhados só.

É   o mundo das sombras, calmo, tranquilo e refrescado pela brisa. Respeito quem adora o sol, mas acho que a claridade dos seus raios denunciam  a imperfeição. Feliz de quem é amigo do sol. Eu, noturno, só consigo escapar na penumbra natural e nas artificiais luzes negras.

Na sexta, em noite de " poagem" amazônica, eu vi um pé de laranja-lima. Heróico pé de laranja-lima que brotou na dura calçada à beira do escuro asfalto. Seria este fato digno de um poema também digno. E estava lá no cruzamento das avenidas São Paulo e 28 de Setembro. Ora,  Caetano na sua composição "Sampa" não imortalizou a esquina da Ipiranga com a São João ?  Por que não versar sobre este acontecimento, que não aparece em jornal nenhum, pois não é notícia  ? Afinal,  no mundo civilizado, quem se preocupa com um pé de laranja-lima que nasce em uma calçada  ? Isto não é motivo para uma pauta ? Então resta a poesia.

Como não sou poeta, decidi que registraria em fotos e encaminharia a um colega blogueiro, craque em versos. Se o compositor baiano viu poesia em uma esquina cheia de bares e papudinhos lá 1978, o eu-lírico do blogueiro amigo  não teria dificuldade alguma em tornar sublime uma cena já solene : Um pé de laranja-lima que teima em ser um ser, contra tudo e todos,  no mundo do cimento e concreto do século XXI !   

Sábado pela manhã, em dia ensolarado, resolvi visitar a misteriosa planta e registrar em câmera escura, seu heroísmo para ser cantado em versos com rimas ou não.

Mas, pelo advogado de Barrabás ! Não era um pé de laranja-lima ! E eu lá sei sei como é um pé de laranja-lima  ?  Era um pé de Trabalho e Cidadania. Ele não nasceu. Foi abortado, jogado dentro de um buraco de um esgoto destampado, para avisar aos transeuntes desatentos. Humanista, o funcionário público da limpeza... 

Esqueçam a existência de uma calçada. Cruzamento das avenidas ? A 28 de Setembro, só tem título. É uma ruela sem calçadas. Após cruzar a São Paulo vira um varadouro, sem a riqueza natural deste e caminho só de ida. Peço perdão ao Caetano. Não aconteceu nada em meu coração. Acho que nem tenho mais coração. Porém no lugar dele não há uma pedra. No extremo ocidental não tem pedras. Tenho então um pedaço da mais escorregadia tabatinga. A luz do Sol dissipa as ilusões e resseca a tabatinga. Para não morrer de desgosto continuarei caminhando à noite, faça névoas ou não.


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