terça-feira, 31 de maio de 2011

O TEMPO PELO VIDRO E PELAS LÁGRIMAS


Eu também vi o menino e ele chorava. Não derramava lágrimas, elas quase não preencheram as órbitas oculares. Também não era só um choro contido. Seu peitinho magro não arqueava ou buscava o ar com dificuldade. Vestia camiseta e bermuda bem maiores que o tamanho do seu corpinho, que deixavam transparecer a fragilidade dos seus braços e pernas. Calçava sandálias de dedo e seus pequeninos pés estavam molhados pela fina chuva de inverno que caia e  salpicados  pela lama da rua sem pavimento decente.

Mas sei que chorava e era por dentro. Seus olhos levantavam-se. Encaravam o algoz do seu heroi, depois voltavam ao chão, humilhados. Com braços e ombros caídos não esboçou qualquer reação e não exprimiu nem uma espécie de som audível. Imóvel , aqueles breves minutos pareciam uma eternidade. O mundo ao redor parou.

E vi o heroi, ali, derrotado, sendo humilhado por palavras e ameaçado de exclusão. Li em seus olhos que nada daquilo tinha importância e era perfeitamente suportável  não fosse na presença do menino. Não o importunavam os olhares curiosos dos transeuntes. Aqueles entendiam como o mundo funcionava, mas e o menino ?  Como poderia doravante pegá-lo no colo e ensinar-lhe que o trabalho dignifica o homem e que o que realmente vale nesta droga de vida é a decência, a honestidade; é o orgulho de ser gente ?

Com gosto amargo na boca, só restava-lhe  balançar a já grisalha  cabeça, balbuciar desculpas por nada e torcer para que o tempo passasse depressa e com ele aquela humilhação. Abatido, percebeu que o seu reinado ruíra, o encanto quebrou-se,  maldosamente , antes do tempo natural. O heroi era a parte mais frágil da trama  da vida real.


Quisera eu ter o poder de interferência das coisas, mas era  um viajante do tempo com permissão de só observar. Queria sacolejar aquele moleque de corpo magro e rosto escorrido, força-lhe a pulsação, arrancar do seu peito a voz engolida, expeli-la ao exterior como um brado; queria expugnar a armagura e a decepção armazenadas naquele coraçãozinho puro; incutir nele a bravura, fazer corar de fervura a sua face inocente e pálida pelo medo.

Pela explosão de sentimento, faria ao algoz entender  que o mundo dos homens poderia tudo, menos arrancar daquele coração tenro o orgulho que tinha do heroi caído, pobre homem, que só possuía por riqueza a responsabilidade que o impelia à coragem de enfrentar a vida e levar os menores dos confortos materiais aos seus dependentes. E isso não o tornava menos humano a ponto de ser alvo de tamanha reprimenda pública somente para satisfazer a sensação de todo-poderoso  - proporcionada pelo acumulo de capital -  do também homem que o exortava.

Com um nó na garganta  tentei desesperadamente gritar. Inútil. A mim não foi dada a permissão de interferir. Perdida no tempo e espaço para trás ficou aquela cena sem poder ser modificada. Nisto, o passado é soberano. Como o tempo não para,  hoje, o menino deve ser um homem. Seguindo o ciclo da humanidade agora está como o algoz humilhando ou, repetindo seu pai, sendo humilhado. Ou talvez esteja como eu viajando pelo tempo. E o seu heroi é só mais uma cruz em meio a tantas outras.

Um comentário:

  1. Que texto lindo Jairo. Emocionante e me prendeu até o final, mesmo sem saber qual cena vc descreve . Como vc disse o heróio é parte da trama da vida, vivou ou morto ele é capaz de inspiriar nossos corações a nos tornarmos homens de coragen e caráter. Infelizmente, as vezes o pragmatismo destroi a figura do herói e a sociedade continua reproduzindo apenas o papel vítima-algoz. Precisamos d eheóiso que nos inspire a sermos tb e não pseudos salvadores da patria.Valeu

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