quinta-feira, 26 de abril de 2012

ROTATÓRIA ...

Domingo à tarde.

Ela, de corpo franzino, vem conduzindo sua moto, daquelas pequenas, quase de uso exclusivo feminino. Faz o percurso da Copacabana ao Centro da cidade.

A Copacabana de avenida só tem o nome e o movimento. Na verdade é uma ruela que deveria ser de mão única . Acreditem ou não  ( surpresa ! )  não tem calçadas. E não estou falando daquela famosa calçada mosaica.  É de coisa básica mesmo.

O nome pomposo, dizem, nasceu da gozação  de uns turistas ou visitantes diante da visão que a cheia  do outrora caudaloso Igarapé do  Boulevard proporcionava.

Como o cruzeirense  é povo espirituoso e grandioso em rir-se de suas próprias mazelas adotou-se a alcunha como nome . E a rua que não nasceu de planejamento urbano, Copacabana popularmente se chamou.

Ele ou ela _  não consegui ver _ vinha pelo boulevard Thaumaturgo , aquele  que alguns redatores insistem chamar de "avenida Boulevard" . Maximé ! Ou é avenida ou é boulevard ! A não ser que queiram presentear com mais um nome o fundador da cidade. Terá então  sido fundada pelo senhor coronel  Boulevard Gregório Thaumaturgo de Azevedo ?

Nosso boulevard em plena selva amazônica não é arborizado e o canteiro entre as vias esburacadas se encontra sujo, com ridículos recipientes mal conservados para pôr o lixo que só servem para os cães sem dono surpreenderem os motociclistas quando pulam de dentro das tranqueiras para o meio da rua.      

Mas então. Ele/ela  vinha pelo boulervad Thaumaturgo no sentido centro à  25 de Agosto, dentro de um carro vistoso de pneus talutos e vidros escurecidos a 75 %. O bólido vinha de vidro fechado e ainda assim ouvia-se um som que julguei ser o tal "sertanejo universitário". Até recentemente não sabia que música cursava graduação.

Ela de moto entra, primeiro, na rotatória _ que alguns por aqui chamam de 'bola", com as  luzes indicativas devidamente acionadas. Quer fazer o retorno.

O carro sequer diminui a marcha. Avança sobre o veículo menor. Por conta do imponderável o pior não acontece. Ela consegue se livrar do choque, mas perde o equilíbrio e vai ao solo.

De longe, não consegui avistar a placa do poderoso que arrancava na ladeira da 25 , mas minhas retinas foi direto a uma frase escrita na cor   vermelha que se destacava no fundo escuro do vidro traseiro : " TUDO POSSO NAQUELE QUE ME FORTALECE".

Àquelas horas o sol quase se escondia no horizonte, mas ainda lançava seus últimos dourados raios sobre a cidade, causando a deliciosa sensação morna do fim de tarde ventilado.

'O Velho Astro que nasce para todos', diriam os entusiasmados liberais na aurora da liberdade individuais.

Por agora, alguns mais iguais que os outros andam de artificial ar refrigerado mesmo ao entardecer , pouco se interessando pela segurança dos menos iguais. E até da Providência se apossaram, a não ser, claro, que AQUELE não seja bem o que a frase quis dizer.

Ou é mera retórica que ao usuário  não faz sentido real algum !

Ela se levantou, morena de cabelo comprido,sem maquiagem, bateu a poeira do vestido igualmente longo . Um solidário estranho _  de onde apareceu ? _  a perguntou : _ Você tá bem ? Não se machucou ?

_ Não. Ralei um pouquinho aqui no joelho. No resto está tudo bem pela graça de Deus...

O espirito dela ainda se conserva cândido. Eu não entendo.

E o Sol que nasce, também esconde-se no horizonte para todos. E às vezes é só o sol.   


Um comentário:

  1. Belo retrato realista da nossa CZS sem planejamento e da hipocrisia que se esconde sobvidros fumês e frase bíblicas

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