terça-feira, 29 de maio de 2012

CRONUS

Por esse fim de semana, continuando a leitura do livro " Trabalhadores da Floresta do Alto Juruá" do professor Enock da Silva Pessoa.

Interessante é que adquiri o livro ainda em 2008 e até a presente data ainda não terminei de lê-lo, não obstante suas 330 páginas.

É que sempre me detenho a detalhes que a alguns passam desapercebidos e acabo se embrenhando nos emaranhados de pensamentos a partir dos detalhes, passam-se as horas e acabo esquecendo de continuar a leitura. E assim o livro vai rendendo.

Estive por agora lendo a página 247 que fala sobre o conflito geracionais e um trecho narrado na primeira na primeira pessoa segue em ipsis litteris

Os jovens que ficavam na cidade, também usavam sua criatividade como podiam. Segundo papai contou-me , quando ele era jovem, participava  com Jorge Cruz e outros amigos, de um grupo autodenominado  República dos Inocentes, provavelmente entre 1921 e 1925. Para comprovar que eram verdadeiramente inocentes  faziam algumas estripulias, tais como: 1) de madrugada, pular do barranco mais alto do Rio Juruá tomando banho,  pelados 2) ir para o sereno dos bailes sem calças, só com camisas, porém segurando uma poronga acesa ( lamparina com espelho de lata), cuja sombra impedia que os outros vissem suas partes íntimas.


Na década de 20 os jovens por aqui não eram nada comportados. A juventude sempre transgrediu e a geração mais antiga, ex-transgressores, é sempre hipócrita. E assim funcionam desde sempre as sociedades.

Fico imaginado hoje existindo  tal 'república' fazendo tais estripulias 'inocentes'. Não seriam estas algumas das mais comuns  reações de nossa moderna hipocrisia de sempre ? 

1) "É tudo culpa da televisão. No mínimo viram isto na novela das oito", diriam aqueles expert's em comunicação de massa;

2) " Onde está a segurança pública que prometeram na última campanha política ? mudança já ! " exclamaria um derrotado nas urnas que sequer tinha uma proposta decente para a segurança pública;

3) " Tirem as crianças da sala, as cenas a seguir são inadequadas " , aconselharia o apresentador do telejornal. O câmera muito profissional filmara a sequência de todos os ângulos possíveis;

4) " A culpa é dos país que criam os filhos sem um pingo de responsabilidade, só esperam pelo poder público ", esclareceria a psicóloga de um Conselho qualquer sobre a política pública para jovens e adultos

5)  " A culpa é do Estado que não tem política pública para os jovens ", acusariam os expert's de última hora, progressistas e amantes da política de inclusão social que (a)fundaram uma ONG para garantir a boa educação dos jovens de sua família, primeiro.

6) " É o fim dos tempos, o mundo está perdido, Jesus está voltando", gritaria uma senhora antiga quase contemporânea da década de 20;

7) " Estão todos drogados, e ainda tem gente que luta pela liberação da maconha, meu Deus ! " diria aquele ateu reacionário e libertário do econômico, revendedor de aguardente e cerveja,  num momento de fraqueza e franqueza;

8) " É proibido proibir " protestaria o político de mente aberta. Tão aberta a ponto de se interessar pelo tamanho da república dos rapazes;   

9)" É um movimento politiqueiro para tentar destabilizar o meu governo na prefeitura. Quero dizer que é perda de tempo. Não sou candidato a nada. Só sou candidato a terminar meu mandato. " diria aquele prefeito com mania de perseguição. Meses depois confirmaria sua pré-candidatura à reeleição.

10) " Estamos de porta abertas, podem entrar aqui não temos medo de nada ", desafiaria o presidente da câmara de vereadores caso o pessoal resolvesse passar balançando o cipó em frente à Casa do Povo.

11) " Cadê nossos deputados federais que não fazem uma emenda para comprar lanternas modernas para os jovens usarem quando forem andar sem as calças nas festas ? As lamparinas estão ultrapassadas pelo amor de Deus !"  esbravejaria o comentarista político nas ondas matutinas de rádio.

12) " Quero dizer que ontem mesmo estive em reunião com o ministro da pesca e cultura e recebi a promessa de uma emenda no valor 'x" para comprar dezenas lanternas de última geração para que nossos jovens, aí da nossa região, possam esconder em definitivo suas minhocas no escuro ", aproveitaria a deixa um deputado federal alertado pelo sonolento assessor que não desgruda o ouvido do rádio. Depois o deputado ficaria sabendo que o assunto nada tinha a ver com pesca.
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E eu com tudo isso ?

Jogaria os ombros. Esse troço da juventude é um estado de espírito ou estado de embriagues sem vinho. Depois é só ressaca, gordura localizada e um rosário de proibição na ponta da língua.

Sem transgressões o mundo perderia a graça e jamais a humanidade caminharia, nem que seja rumo à estupidez.

Sendo um admirador incurável da juventude nunca me incomodaria qualquer tipo de " mau comportamento". Os jovens precisam demonstrar todo o descontentamento contra o status quo. 

E se fosse meu filho ?

Filhinho de papai ? Jamais...never , prá dentro de casa, menino !

2 comentários:

  1. Jairo,
    o texto ficou muito bom. Meu amigo você continua cada vez mais afiado. Escreves de uma maneira cativante, com um olhar perspicaz. Assim, só posso expressar ainda mais minha admiração por suas letras.

    Abraços!

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  2. Sempre oportuno e atento além das obviedades. Precisamos alimentar uma visão do tempo, além do imediato, para nos livrar dos parasitas oportunistas de plantão. Sejam os políticos "boca-mole" ou os "Apocalípticos de Plantão S.A. - Anunciando o fim do mundo desde 138 d.C"

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