quarta-feira, 3 de outubro de 2012

UMA MÁ PARÁBOLA, SEM MORAL OU PEDAGOGIA

Acordou como de costume muito tarde. Malgrado a mesa farta, não tomou o 'quebra-jejum, faltou-lhe o apetite, então pois-se a ler a internet para ficar a par do noticiário local e nacional. Fatos internacionais não o interessava mais para aquele momento. Da Síria só conhecia o pão.

Prendeu a atenção em matéria de jornal on-line local que falava sobre uma pesquisa na qual o eleitorado opinava sobre o perfil do político da terra que um dia o general francês, De Gaulle, ousou dizer que não era um país. 99 % dos entrevistados descreveu como falsos e hipócritas seus representantes políticos.

De imediato veio-lhe a luz : " Meus sais, o eleitor pede por políticos sinceros !"

Naquela noite aconteceria o último comício da coligação. E que coligação ! Tinha ideologia partidária para todos os gostos. Havia preparado de véspera um discurso inflamado e ao mesmo tempo comovente. Já tivera sucesso em conseguir fazer rolar lágrimas pelo rosto diante do espelho do banheiro. Um perfeito ator.

Passou a tarde meditando sobre o teor da pesquisa e do sonho que tivera na noite anterior. Como não tinha o dom do bíblico do José do Egito, não conseguira decifrar-lo ainda. Mas eis que aquela pesquisa lhe abriu a mente de estalo. " Nasce aqui um novo político", falou pra si, estufando o peito.

À noite chegou. O comício era grandioso. A cada cinco minutos chegava um caminhão ou ônibus lotado de simpatizantes pagos para levantar as bandeirolas da coligação. As pessoas têm uma simpatia enorme quando são regiamente pagas.

 No local caberia no máximo umas cinco mil pessoas. Mas já estava tudo acertado para que as manchetes do dia seguinte falassem de coisa de aproximadamente trinta ou quarenta mil presentes. Quem vai contestar dados fornecidos pelos matemáticos da polícia, não é mesmo ? Obstante, claro, a polícia normalmente não aparecer na festa da democracia.

E começou o foguetório. E começou a fala dos candidatos a vereador. E a cada promessa dos candidatos,  a cada abraço no candidato a prefeito da coligação e eternas juras de amor, sentia uma agulhada nos escrotos, e o suor frio causado pela ânsia abundava-lhe o rosto.

Finalmente, chegou a sua vez. Era sempre um dos últimos antes do prefeito. " É chegada a hora de dar aos eleitores o que eles tanto pedem",  pensou. Firmemente segurou o microfone e deixou falar o coração.

_ Isto é uma farsa ! Aqui ninguém está com ninguém, é cada um por si e o improvável por todos. Vejo gente que está pedindo voto para o prefeito aqui em cima e agora, porém não tem o mesmo ímpeto quando anda de casa em casa. Na verdade são uns vendidos para oposição, uns merdas que fazem parte de uns 'partididinhos' de meia pataca, cujos votos não enchem uma urna...

Diante da plateia estupefata continuou:
_ Mas é bem feito. O nosso candidato a prefeito, que está aqui ao meu lado, me ameaçando em voz baixa, não presta. Um fanfarrão, um enganador que só prestigia os candidatos do seu partido e o resto é que se dane. Cadê a gasolina e o dinheiro que o senhor prometeu pra gente entrar na coligação, candidato ? Responda ! Seja sincero uma vez na vida ! Cadê o dinheiro que o senhor me confidenciou ter recebido dos empreiteiros  ?

Daí foi um rebuliço total, com o animador o segurando por trás, tentando tomar-lhe o microfone das mãos, enquanto o candidato a prefeito, desferia-lhe um soco no rosto, quebrando seus óculos de caros graus em várias partes.

_ Tão vendo, tão vendo ? Este é o homem bonzinho que não gosta da verdade, mas eu sou a verdade...Foram suas ultimas palavras logo depois que foi jogado de cima do palanque e antes de receber uma bandeirada  na nuca, desferida por um outrora eufórico eleitor que tinha saído de casa levando o papai, a mamãe, os filhos e os vizinhos para ouvirem as propostas dos candidatos da coligação.

Acordou no dia seguinte à votação. Tinha a consciência limpa, mas cabeça dolorida de tanta porrada recebida enquanto estava desmaiado.

- "A eleição !"  pensou rápido.

Com algum esforço conseguiu sintonizar um aparelhinho furreca de televisão que tinha no quarto do hospital.,  num telejornal local que era exibido ao meio-dia.

Sua alegria inicial começou a diminuir quando viu o resultado para prefeito. O seu agressor tinha conseguido 99 % dos votos válidos. Na entrevista, com ar vitorioso, o agressor declarou ter "vencido a melhor proposta e o candidato do bem, do amor, do respeito à democracia e ao próximo, daquele que não revidou aos ataques recebidos, Deus e a população foram testemunhas..."

Mais jururu  ficou, quando viu que o seu nome não estava entre os eleitos para o cargo de vereador. E da relação nominal, percebeu que em sua maioria tratava-se dos piores candidatos : os que descaradamente compravam votos, os que mantinham sociais relações suspeitas, os defenestradores da honra alheia, os aproveitadores da massa miserável. Como antigo parceiro, conhecia quem era quem nos bastidores.

Após a alta hospitalar, teve acesso à lista completa do TRE sobre a votação dos candidatos a vereador. Descobriu que obtivera exatamente 1 % dos votos válidos, ficando lá com a 'rabagésima' colocação ...

Daquele dia em diante carregou consigo umas verdades:
_ Os eleitores não sabem responder a uma pesquisa;
_ Os meios de comunicação que fazem as pesquisas não sabem perguntar aos eleitores;
_ E ele, como leitor, tem que ficar mais atento às pesquisas de opinião pública e aos comerciais que dizem que pimenta malagueta é um ótimo remédio para hemorroida. Nas entrelinhas, em letras miúdas, está escrito que o que é bom para hemorroida, é veneno para o portador;
_ E finalmente, se convenceu ser um péssimo decifrador de sonhos e de números.




   

Um comentário:

  1. me lembrou o Chico Basil "sendo sincero" na tribuna ao dizer "todo político é mentiroso. Eu tiro por mim mesmo"

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