sábado, 20 de agosto de 2011

DIRETO DO TÚNEL DO TEMPO: O POETA CRUZEIRENSE DE 1921

Por este sábado lendo o livro Trabalhadores da Floresta do Alto Juruá do professor cruzeirense Enock da Silva Pessoa, encarei um poema escrito em Cruzeiro do Sul no distante ano de 1921. Fora publicado na edição n.º 1 do histórico jornal O Rebate.

O poema foi escrito por Arthur Souza. É uma viagem de retorno. Deu-me vontade de conhecer Arthur Souza, artista das letras que fazia teatro e escrevia revistas na escola Hermes da Fonseca .

O poema é uma crítica social. Do tempo em que as vacas eram obrigadas a usar placas de identificação para poderem circular na cidade. Do tempo em que era proibido obrar dentro dos lagos. Do tempo em que se tomavam o pau dos pobres, só do pobres...

Li no blog do jornalista Leandro Altheman que o " o Juruá é enjoado". Agora lendo o poema acho que o juruaense sempre foi enjoado. Já se não engulia qualquer sapo e ficava-se calado. Foram-se o poeta e a escolinha, mas sua poesia e seu sarcasmo seguem pelos tempos. Algumas coisas mudaram. Outras nem tanto. Nasce de novo Arthur Souza !

A REFORMA
Autoria: Arthur Souza.

Já não serve a ferramenta - pois sim
Que do centro lhe mandaram - pois sim
Com a tirada da cerca - pois sim
Vão perder o que plantaram - É tudo assim.

Tira a cerca afasta a cerca
É o que  se ouve fallar
A cerca é enigma,
Díficil de decifrar.

Impostos e mais impostos
O conselho recomenda
Três vacas é vacaria
de três pra cima é fazenda.

Agora o mariscador
É coisa que bem não soa
Além de seus instrumentos
leva um vaso na canoa.

No lago o mariscador
Não pode fazer à toa
quem quiser fazer sem susto
Faça dentro da canoa.

Sobe imposto desce imposto
É bem grande o movimento
Assim fazendo o Conselho
Deu um tiro no orçamento.

A máchina de seu Pedreira
Muito arroz tem descascado
E o moinho de fubá
Não deu nenhum resultado.

Um terçado e um machado
Quem quiser ter coisas taes
Tem que deixar na Intendência
As impressões digitaes.

Nas vias públicas das vacas
A Intendência recomenda
Para regular o trânsito
Embora ninguém entenda.

Leite em garrafa branca
Podem vender à vontade
Sendo preta a hygiene
Quebra qualquer quantidade.

O delegado da hygiene
Tem pintado a saracura
Não consente mais venderem
Leite em garrafa escura.

Na escola de costura
Foi agora autorizado
As alunnas costuram roupas
Para os sentenciados.

Brevemente vamos ter
Um jornal independente
Que se diz dezarrolhado
Pra meter o pau na gente.

Quem tiver seu pau se cuide
Esconda muito ligeiro
Que os soldados já tomaram
O pau do velho Carneiro.

Nada melhor neste mundo
Do que a gente ser chefão
Não tem medo da polícia
Pode andar com o pau na mão.

( páginas 258 a 260 )

Um comentário:

  1. Caro Jairo,
    poema sensacional!!!
    Aliás esse Jornal "O Rebate", fez história, hein!
    Salve, Arthur!

    Abraços e obrigado por esse resgate histórico.

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