quarta-feira, 2 de novembro de 2011

RASCUNHOS PARA O TEATRINHO DA VIDA REAL

I

Por estes dias tenho lido e ouvido muita gente se queixar dos muros baixos de Cruzeiro do Sul. Não é de agora este queixume.

Lembro-me que quando eu falei a um colega que estava vindo morar por esta banda, ele um cruzeirense de RG, surpreendeu-me ao dar o seguinte aviso: " A cidade é legal, agora cuidado que o pessoal de lá se preocupa muito com a vida alheia !" 

Segundo me contou foi embora daqui ainda quando criança. Não sei o que uma criança entende por fofocas para criar um juízo de valor sobre sua cidade natal. Ou ele não foi retirado a tempo de escapar da contaminação ou é coisa de sangue. Só um linguarudo nato para delatar assim sua orígem, pensei.

E o que ele sabia de tão grave da minha vida, que eu não sabia, para tal desinteressado conselho sobre o que pensariam a meu respeito na tal terra dos muros baixos ?

Dizer que Cruzeiro do Sul é o lugar com maior quantidade de bisbilhoteiro por metro quadrado do Acre, sinceramente, considero um exagero. Não há embasamento teórico ou científico para tal afirmação. 

Ademais, o fuxico não é monopólio cruzeirense. Em toda cidade pequena do Acre, Brasil e mundo existe este fenômeno social. E acreditem, a arte de observar e falar da vida alheia acontece em qualquer urbe por maior e mais cosmopolita que ela seja.
A diferença entre o falar  dos outros de uma cidade pequena e de uma metrópole está na forma, mas o conteúdo é o mesmo. Não a toa que os tais reality show são um sucesso. Não é sem sentido que existem os paparazzis ocupados com a desocupação alheia para distrair as mentes dos sem preocupações com o que realmente interessa nesta vida.

Já moro há mais de uma década no Juruá. Se alguém me perguntar sobre o quesito  'fofocas' , não o sei responder quantitativamente e nem qualitativamente, porque não me interesso por tal assunto.
II
(trocando de máscara)
Eu não me preocupo ou acredito que alguém fale de mim. Não acho que as pessoas gostem de mim. Credito isto a duas variáveis.

A primeira é que eu tenho uma cara de poucos amigos, por isso quase não tenho amigo. Sou um antipático nato que detesta dá bom-dia no ambiente de trabalho. Se acreditasse no diabo, diria que  é a saudação do capeta. É a porta de entrada para falar da vida alheia. O empirismo me comprova que aqueles que mais dão os sonoros bons-dias, com aquele sorriso de boca a boca, são os que mais detonam os colegas na ausência destes.

Os poucos que ousam atravessar a barreira da minha antipatia natural, encontram pela frente a minha antipatia funcional. Não demonstro interesse pela conversa ou no máximo apresento um sorriso sem graça. Com pouco de tino o loquaz saberá que não está agradando.

Ser um antipático quando se tem um rosto bonitinho até que é um charme. Agora um feio antipático afugenta as pessoas. É praxis !

A segunda variavel é que eu não sou nada, socialmente falando. Ninguém se interessa pela vida de quem não é nada. Além de não ser nada, não consigo representar. Não sou assim o prego que quer aparecer e nem a arvore que dá frutos. Estou livre do martelo e das pedradas. Sou sem sal e açucar.

Qual a relação entre as pessoas gostarem de mim e falarem de mim ? É diretamente proporcional. As pessoas só falam ou se interessam pela vida de quem elas realmente gostam ou admiram, sentem inveja no mal ou no bom sentido.

Já não disseram que o contrário do amor, não é o ódio e sim a indiferença ? As pessoas sem futuro ou nada para mostrarem são jogadas no limbo. Eu me criei no limbo. Já me acostumei a ele.

Quem reclama que é alvo de fofocas, não sabe do que está falando ou está de brincadeira. Ou é um ingênuo ou um hipócrita. Não sabe como é feliz ou sabe e finge não saber para ficar mais ainda em evidência. Parem de reclamar ! Vocês são estrelas que não suportariam viver no esquecimento social. Nasceram para brilhar, uns naturalmente, outros nem tanto.

E você, senhor Indiferença, não se interessa pela vida alheia ? Sim !!!! Olho as pessoas de brilho, olho para sua roupas, se tem as unhas bem aparadas ou cabelo nas narinas, ouço a suas falas e observo os seus trejeitos. Mas tento advinhar os espíritos além da casca carnal. O espírito é minha matéria.

O mundo de vocês, senhores e senhoras, é um teatro e é bem mais interessante do que eu mesmo. O mundo das luzes é minha oficina.

Isto me faz ri, aqui no limbo, sozinho e no escuro. Vez ou outra, conto uma piada aos amigos e colegas que riem foçadamente com medo de que me tornem ainda mais antipático.

Em tempo: piada ou causo não é fofoca, é só a realidade redimensionada.

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